Por que pagar para ter dinheiro se você pode receber para guardar dinheiro?
Uma das dúvidas mais comuns que recebo como analista financeiro é: "O consórcio vale a pena? Afinal, não tem juros!".
Essa é uma das maiores "pegadinhas" do mercado financeiro brasileiro. É verdade que o consórcio não cobra juros bancários compostos, mas ele cobra algo que pode sair tão caro quanto: a Taxa de Administração e a falta de rendimento do seu dinheiro.
Para tirar essa dúvida de vez, deixei a teoria de lado e fiz uma simulação prática. Vamos comparar dois amigos, o Pedro (que fez um consórcio) e a Ana (que decidiu investir).
O Cenário
Ambos querem comprar um carro no valor de R$ 100.000,00 e planejam isso para um prazo de 60 meses (5 anos).
1. O Caminho do Pedro (Consórcio)
O Pedro contratou uma carta de crédito de R$ 100 mil. O vendedor disse que "não tem juros", apenas uma taxa de administração e fundo de reserva que, somados, dão cerca de 20% sobre o valor da carta diluídos no prazo.
Valor do crédito: R$ 100.000,00
Custo total (Crédito + Taxas): R$ 120.000,00
Parcela mensal fixa: R$ 2.000,00*
Nota importante: No consórcio real, a parcela aumenta todo ano seguindo a inflação ou tabela da montadora. Mas, para ajudar o Pedro, vamos fingir que a parcela dele não aumentou.
Resultado após 5 anos:
O Pedro pagou R$ 120.000,00 para ter um bem de R$ 100.000,00. Ele pagou R$ 20.000,00 apenas pelo "serviço" de guardarem o dinheiro dele. Além disso, ele dependeu da sorte (sorteio) para pegar o carro.
2. O Caminho da Ana (Investimento em Renda Fixa)
A Ana decidiu ter disciplina. Em vez de pagar o boleto do consórcio, ela investiu o mesmo valor (R$ 2.000,00) todos os meses em uma aplicação segura de Renda Fixa (como um Tesouro Selic ou CDB de banco grande), com uma rentabilidade média conservadora de 0,85% ao mês líquido.
O poder dos Juros Compostos:
No mês 1: Ela tem R$ 2.000,00.
No mês 12: Ela já tem cerca de R$ 25.300,00.
No mês 42 (3 anos e meio): A Ana já atingiu os R$ 100.000,00.
Aqui está o "pulo do gato": A Ana conseguiu o valor do carro quase 1 ano e meio antes de terminar o prazo do Pedro.
E se ela continuasse investindo até o mês 60, igual ao Pedro?
Total Acumulado pela Ana: Aprox. R$ 155.000,00.
O Veredito: Quem fez o melhor negócio?
Vamos colocar lado a lado o resultado final após 60 meses de esforço financeiro:
| Pedro (Consórcio) | Ana (Investimento) | |
| Quanto tirou do bolso | R$ 120.000,00 | R$ 120.000,00 |
| O que tem na mão | Um carro de R$ 100 mil | R$ 155 mil em dinheiro |
| Saldo da operação | Prejuízo de R$ 20 mil | Lucro de R$ 35 mil |
A Vantagem Invisível: O Poder de Compra
Além da matemática financeira, existe a vantagem da negociação.
Quem chega na concessionária ou imobiliária com o dinheiro à vista (como a Ana) manda na negociação. É muito provável que ela consiga comprar o carro de R$ 100 mil por R$ 95 mil.
Já quem compra com carta de consórcio (como o Pedro) tem o processo burocrático de liberação do crédito, o que muitas vezes impede grandes descontos.
Conclusão
O consórcio pode ser útil apenas para quem não tem disciplina nenhuma para guardar dinheiro e precisa de um boleto para se obrigar a pagar. Mas, financeiramente falando, ele é ineficiente.
Se você tem o objetivo de comprar um bem, a melhor estratégia é:
Tenha disciplina.
Invista em Renda Fixa segura.
Deixe os juros pagarem parte do seu sonho.
Não pague para ter dinheiro. Receba para ter dinheiro.

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