terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Consórcio ou Investimento? Colocamos os números na ponta do lápis

Por que pagar para ter dinheiro se você pode receber para guardar dinheiro?

Uma das dúvidas mais comuns que recebo como analista financeiro é: "O consórcio vale a pena? Afinal, não tem juros!".

Essa é uma das maiores "pegadinhas" do mercado financeiro brasileiro. É verdade que o consórcio não cobra juros bancários compostos, mas ele cobra algo que pode sair tão caro quanto: a Taxa de Administração e a falta de rendimento do seu dinheiro.

Para tirar essa dúvida de vez, deixei a teoria de lado e fiz uma simulação prática. Vamos comparar dois amigos, o Pedro (que fez um consórcio) e a Ana (que decidiu investir).

O Cenário

Ambos querem comprar um carro no valor de R$ 100.000,00 e planejam isso para um prazo de 60 meses (5 anos).



1. O Caminho do Pedro (Consórcio)

O Pedro contratou uma carta de crédito de R$ 100 mil. O vendedor disse que "não tem juros", apenas uma taxa de administração e fundo de reserva que, somados, dão cerca de 20% sobre o valor da carta diluídos no prazo.

  • Valor do crédito: R$ 100.000,00

  • Custo total (Crédito + Taxas): R$ 120.000,00

  • Parcela mensal fixa: R$ 2.000,00*

Nota importante: No consórcio real, a parcela aumenta todo ano seguindo a inflação ou tabela da montadora. Mas, para ajudar o Pedro, vamos fingir que a parcela dele não aumentou.

Resultado após 5 anos:

O Pedro pagou R$ 120.000,00 para ter um bem de R$ 100.000,00. Ele pagou R$ 20.000,00 apenas pelo "serviço" de guardarem o dinheiro dele. Além disso, ele dependeu da sorte (sorteio) para pegar o carro.


2. O Caminho da Ana (Investimento em Renda Fixa)

A Ana decidiu ter disciplina. Em vez de pagar o boleto do consórcio, ela investiu o mesmo valor (R$ 2.000,00) todos os meses em uma aplicação segura de Renda Fixa (como um Tesouro Selic ou CDB de banco grande), com uma rentabilidade média conservadora de 0,85% ao mês líquido.

O poder dos Juros Compostos:

  • No mês 1: Ela tem R$ 2.000,00.

  • No mês 12: Ela já tem cerca de R$ 25.300,00.

  • No mês 42 (3 anos e meio): A Ana já atingiu os R$ 100.000,00.

Aqui está o "pulo do gato": A Ana conseguiu o valor do carro quase 1 ano e meio antes de terminar o prazo do Pedro.

E se ela continuasse investindo até o mês 60, igual ao Pedro?

  • Total Acumulado pela Ana: Aprox. R$ 155.000,00.


O Veredito: Quem fez o melhor negócio?

Vamos colocar lado a lado o resultado final após 60 meses de esforço financeiro:

Pedro (Consórcio)Ana (Investimento)
Quanto tirou do bolsoR$ 120.000,00R$ 120.000,00
O que tem na mãoUm carro de R$ 100 milR$ 155 mil em dinheiro
Saldo da operaçãoPrejuízo de R$ 20 milLucro de R$ 35 mil

A Vantagem Invisível: O Poder de Compra

Além da matemática financeira, existe a vantagem da negociação.

Quem chega na concessionária ou imobiliária com o dinheiro à vista (como a Ana) manda na negociação. É muito provável que ela consiga comprar o carro de R$ 100 mil por R$ 95 mil.

Já quem compra com carta de consórcio (como o Pedro) tem o processo burocrático de liberação do crédito, o que muitas vezes impede grandes descontos.

Conclusão

O consórcio pode ser útil apenas para quem não tem disciplina nenhuma para guardar dinheiro e precisa de um boleto para se obrigar a pagar. Mas, financeiramente falando, ele é ineficiente.

Se você tem o objetivo de comprar um bem, a melhor estratégia é:

  1. Tenha disciplina.

  2. Invista em Renda Fixa segura.

  3. Deixe os juros pagarem parte do seu sonho.

Não pague para ter dinheiro. Receba para ter dinheiro.